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Entrevista / Márcio Dias

"Como reduzir custos de R$15 bi sem afetar trabalhadores?"

Dirigentes da Petrobrás afirmam que medidas não irão prejudicar situação da mão de obra

12 de novembro de 2012 às 17:27

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Foto: Arquivo

O diretor da Secretaria Geral do SINDIPETRO-RN, Márcio Dias, esteve no Rio de Janeiro, no último dia 5 de novembro, participando de uma reunião no Edifício Sede da Petrobrás, em que foi apresentado o Programa de Otimização de Custos Operacionais da Companhia, o chamado Procop. A exposição foi coordenada pelo Gerente de RH da Petrobrás, Diego Hernandes, que informou que o Programa já está em curso, tendo sido iniciado em junho, devendo percorrer três fases. As metas finais serão divulgadas até o final deste ano, juntamente com os respectivos responsáveis, e a execução deverá ocorrer a partir de janeiro de 2013. Nesta entrevista, Márcio Dias relata as principais características do Procop e manifesta suas preocupações com as possíveis consequências do Programa para os trabalhadores.

SINDIPETRO-RN: Qual o foco do Procop?

MÁRCIO DIAS: O Procop faz parte do Plano de Negócios 2012-2016 da Petrobrás e terá foco em três questões. No aspecto financeiro, aumento da geração de caixa; no operacional, aumento da produtividade, leia-se: produzir mais gastando menos; e, no aspecto organizacional, otimização dos custos, leia-se: redução de custos.

SINDIPETRORN: E o que os levantamentos já realizados encontraram?

MÁRCIO DIAS: Até o momento, segundo a Companhia, foram identificadas 28 oportunidades de otimização com potencial de redução de custos, dentro de cinco áreas de atividade: produção de óleo e gás; refino e logística; gás e energia; materiais; e suporte.

SINDIPETRORN: Poderia detalhar um pouco mais essas “oportunidades”?

MÁRCIO DIAS: Na área de Produção de Petróleo e Gás, redução de consumo de insumos em plataformas e campos de produção; otimização de recursos empregados na operação e manutenção de plataformas, poços e instalações; otimização de recursos de logística. Na área de Refino e Logística, nivelamento de produtividade das refinarias; redução dos custos de manutenção; redução dos custos de operação de oleodutos, terminais e navios; redução do nível de estoques. Na área de Gás e Energia, redução do custo operacional da malha de gasodutos; redução do consumo de insumos em usinas termelétricas e plantas de fertilizantes; otimização de recursos empregados na operação e manutenção de usinas termelétricas e plantas de fertilizantes. Na área de Materiais, otimização dos processos de compra de peças; padronização e simplificação da especificação de bens; otimização de estoques. Por último, na área de Suporte, redução dos custos de TI, serviços prediais e demais serviços de suporte às operações.

SINDIPETRORN: Já há alguma estimativa em termos de valores a serem alcançados?

MÁRCIO DIAS: Segundo o representante da Companhia, de um total de R$ 199 bilhões que constituiu a base de custos do produto vendido e despesas operacionais desprendidas pela Petrobrás em 2011, a parcela de gastos gerenciáveis foi de 63 bilhões de reais, ou seja, gastos que são passíveis de serem manipulados para redução de custos. Essa parcela exclui os custos de compra de matéria-prima e derivados, participações governamentais e despesas de depreciação, depleção e amortização. A expectativa da Companhia é alcançar uma redução de custos da ordem de R$ 15 bilhões, ao longo dos próximos anos.

SINDIPETRORN: E como o Sindicato se posicionou na reunião?

MÁRCIO DIAS: De nossa parte, fizemos uma intervenção no sentido de que nós, trabalhadores, acreditamos que a otimização dos custos deve ser uma rotina normal em qualquer empresa, mas que, no caso da Petrobrás, especificamente, esses programas, historicamente, só serviram para atacar os nossos direitos e criar problemas, gerando uma ambiência muito ruim. Enfatizamos, também, que a Petrobrás vive um momento extremamente desagradável do ponto de vista da gestão, descambando, cada vez mais, para uma linha politicamente atrasada, sendo público e notório que uma grande parte dos seus gestores tem uma postura antissindical e muitos deles, inclusive, declaram abertamente que detestam os Sindicatos. 

SINDIPETRORN: Quais as motivações da Petrobrás para implantar o Procop?

MÁRCIO DIAS: É muito visível que a grande preocupação da atual presidenta da Petrobrás é no sentido de atender as demandas do mercado e desacelerar ou mesmo  cortar investimentos na produção, em áreas onde o retorno não for muito elevado. Em nossa opinião esse caminho não foi o que o presidente Lula determinou ao então presidente da Petrobrás Gabrielli, e que levou a Companhia a ser uma locomotiva do desenvolvimento nacional.

Por outro lado, também opinamos no sentido de que vemos com muita preocupação essa diretiva da Companhia, e que vamos alertar os trabalhadores para que tomem muito cuidado ao apresentar "sugestões" de redução de custos porque a experiência recente é que, em muitos casos, as tais sugestões acabam sendo um tiro no pé, prejudicando a nós mesmos.

SINDIPETRORN: Então o senhor acredita que o Procop poderá atingir os trabalhadores?

MÁRCIO DIAS: Na prática isso já está acontecendo. Veja, por exemplo, os ataques e descumprimento do nosso Acordo Coletivo de Trabalho com manobras de vários gerentes manipulando escalas de regimes de trabalho para criar banco de horas para não pagar horas extras. O que dizer da esculhambação, falta de respeito dessa terceirização selvagem e sem escrúpulos imposta pela Companhia com o objetivo de reduzir custos surrupiando os direitos do trabalhadores e trabalhadoras... E por aí vai. Veja a AMS, cada vez mais cara e sucateada para nós, trabalhadores e trabalhadoras, enquanto que para a alta cúpula é gratuita. Isso é  fato.

Assim, durante a reunião, deixamos claro que não acreditamos no que os representantes da Companhia dizem quando afirmam que as tais medidas não irão afetar os trabalhadores e trabalhadoras. Como é que a Companhia quer reduzir custos num montante de R$15 bilhões sem que isso afete a vida dos companheiros e companheiras?

O discurso da Companhia é bem conhecido e bem atrasado. Vejo a gestão da Petrobrás quase que completamente dominada pelos antigos neoliberais que perderam a eleição, mas não perderam o posto...  e nem a pose. Olham para o Sindicato e, consequentemente, para a categoria por cima com o olhar de aves de mau agouro e de rapina.

A categoria tem que se preparar para enfrentar com muita luta quaisquer tentativas da Companhia no sentido de nos prejudicar. Com certeza não somos nós os trabalhadores e trabalhadoras - que não detemos a gestão da Companhia - os responsáveis pelos tais desperdícios. Racionalizar custos sim, mas somente onde estiver ocorrendo desperdício. Espero que todo o movimento sindical petroleiro pare com sua divisão, compreenda essa situação e prepare a categoria para a luta contra esse estado de coisas absurdas.

 

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