Pular para o menu
1462881143

Em palestra na UFRN, Paulo Moreira Leite avalia tentativa de golpe e diz que é possível barrá-lo

10 de maio de 2016 às 08:52

destaque

Foto: Christian Vasconcelos

Com a assertiva de que nada está resolvido no cenário político brasileiro, o jornalista e escritor Paulo Moreira Leite abriu a 4ª edição do projeto “Na Trilha da Democracia” na noite desta segunda-feira, 9, afirmando que “o golpe não venceu, não é uma realidade e que é possível barrá-lo, enfraquecê-lo e vencê-lo”.

A plateia que lotou o auditório da Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte fez ecoar a afirmação do jornalista. Estudantes, docentes, servidores, advogados, juristas, petroleiros, profissionais de outras categorias, representantes de movimentos sociais e sindicais manifestaram-se com faixas, cartazes e gritos de que “não vai ter golpe, vai ter luta”.

Ao comentar sobre a decisão do presidente interino da Câmara, o deputado Waldir Maranhão (PP-MA), na manhã de ontem, em anular as sessões plenárias da Câmara em que foi aprovada a admissibilidade do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, o jornalista avaliou que a ação deixa claro que “a ideia de que há um fato consumado, que está todo mundo de acordo em tirar a presidente, não é consenso”. 

Para Paulo Moreira Leite existe uma resistência à destruição de um projeto político que, “apesar das falhas imensas e limites conhecidos, foi capaz de inaugurar uma política de combate à desigualdade e abertura de oportunidades aos mais pobres e menos protegidos que nunca se fez no país”.

O jornalista enfatizou a importância da sociedade ter clareza de que o plano que o PMDB quer implementar em um eventual governo de Michel Temer é “regressão, é atraso”. Ao afirmar que este projeto não serve ao Brasil, Paulo Moreira Leite lembrou que, entre outras medidas, seu conteúdo pretende “abolir a Consolidação das leis Trabalhistas (CLT), eliminar a Petrobras, privatizar o que for possível e revogar direitos que estão na Constituição de 1988”, motivos que, para ele, são “suficientes para que a sociedade confronte esse golpe e defenda a legitimidade do governo da presidenta Dilma Rousseff”.

Na opinião de Leite, o impeachment sem crime de responsabilidade é golpe sim, e ressaltou a necessidade em a sociedade confrontar. “Por termos a consciência histórica, nós temos a obrigação de acompanhar dos os fatos, sem perder nenhum, e defender o mais importante do sistema presidencialista, que é o poder de decisão do povo brasileiro”, alegou.

Ele fez uma comparação do momento atual, em que a decisão é resistir, com o golpe de 1964. Lembrando que na Ditadura, o golpe foi uma operação clandestina, “fechada para iniciados”. Como a maioria dos jornais e jornalistas, que participava da “conspiração, por motivos ideológicos e também de olho em vantagens econômicas que poderiam obter, com executivos que debatiam detalhes e até listavam nomes de pessoas suspeitas a serem presas e cassadas”, a notícia de que se tramava para derrubar um presidente constitucional jamais chegou ao conhecimento de seus leitores e do cidadão comum. 

“No máximo, era motivo de análise, com a genial argumentação contida em "Quem vai dar o golpe no Brasil," do então jovem acadêmico Wanderley Guilherme dos Santos. Mas não era um fato óbvio, escancarado, a ser temido e evitado. Para confundir e paralisar, os jornais davam curso à noção de que Goulart preparava um golpe. A crise do período iludia os mais jovens, embriagava os que tinham mais experiência. Lideranças respeitáveis acreditavam que a revolução estava ao alcance da mão -- quem sabe, de umas poucas metralhadoras”, enfatizou Leite.

Durante sua exposição, o jornalista repudiou as sistemáticas violações das garantias individuais asseguradas pela Constituição e justificadas pela necessidade transcendente de combater a corrupção e moralizar a administração pública. “Hoje estamos acertando algumas contas importantes. É a primeira vez, desde 2014, que o debate está mudando. Passou-se muito tempo convencido de que o problema do Brasil era corrupção, era pegar ladrão. Não entendemos que do ponto do vista do povo, de quem não tem dinheiro, o problema anterior é não ter direitos, é ter democracia, ter respeito do estado. Não é punir, não é perseguir. É garantir que o cidadão comum, aquele mais pobre, possa se defender, possa ter seus direitos respeitados, não seja torturado quando for parar numa delegacia, não seja forçado a assumir crimes que ele não cometeu, não seja condenado a cumprir penas que duram anos em regime de prisão provisória”.

Ao final, Paulo Moreira Leite avaliou que a atitude da presidente em manifestar a decisão de resistir confronta a tentativa de apresentar sua saída como um fato consumado, numa visão que tenta amortecer a capacidade de resistência dos aliados do governo, transformando o período próximo numa sequência de formalidades que poderiam ser cumpridas burocraticamente, sem protesto nem reação de qualquer tipo. O que se quer é transformar um golpe de Estado -inaceitável em qualquer circunstância - num movimento banal, numa troca de guarda palaciana, como se fosse um episódio natural e até aceitável. Compreende-se. Na falta de argumentos plausíveis e legítimos, tenta-se convencer pela força, pela tese de que será inútil resistir.

Compartilhar: