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Empresa alemã desiste de leilão do aeroporto de São Gonçalo

10 de agosto de 2011 às 11:47

Às vésperas do leilão do aeroporto de São Gonçalo do Amarante, no Rio Grande do Norte, a operadora alemã Fraport, uma das principais interessadas no ciclo de privatizações previstas para o setor, afirma que não entrará na disputa. Regras pouco atraentes e cálculos de demanda superestimados são as justificativas da empresa, que opera o aeroporto de Lima, no Peru, para não participar do primeiro leilão do setor no País. "Estudamos o edital de Natal e achamos que a concessão é economicamente inviável. O retorno é tão baixo que não vale a pena. A Fraport não é o tipo de empresa que vai entrar numa concessão já sabendo que as regras não prestam", disse ao Grupo Estado o diretor de projetos da empresa, Felix von Berg.

Embora fontes do governo digam que há grupos querendo participar da privatização, prevista para o dia 22 de agosto depois de um adiamento de um mês, o desinteresse da Fraport pelo aeroporto da Grande Natal acende a luz amarela. A decisão da companhia evoca lembranças do fracasso do leilão do projeto do trem de alta velocidade (TAV), ligando Campinas, São Paulo e Rio. Como não houve propostas, o governo teve de mudar as regras, no caso do trem-bala.

Para Von Berg, entre os principais problemas estão a forma como o edital define os aumentos de tarifa e a especificação de equipamentos caros e desnecessários. "A regulação econômica é uma grande confusão", afirma. Além disso, o diretor afirma que houve um "erro grave" no estudo de demanda feito pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Segundo ele, a demanda de 2010, tomada como base, é metade do que foi estimado pela instituição. Esse cálculo é importante para os consórcios interessados, uma vez que os passageiros de voos internacionais são os que geram as maiores receitas aeronáuticas e comerciais dos terminais.

Von Berg, no entanto, é otimista quanto aos próximos aeroportos a entrar em leilão. Cumbica (Guarulhos) e Juscelino Kubitschek (Brasília), que o governo pretende conceder até o fim do ano, estão na mira da empresa. Viracopos (Campinas), porém, é outro caso difícil, na avaliação da Fraport. "Dos três, Viracopos é sem dúvida o mais difícil de ser concedido. Primeiro porque investidores gostam de uma boa visibilidade de como será o fluxo. Porém o número de passageiros vai depender muito de que capacidade Guarulhos terá no futuro", diz o executivo.

Além disso, boa parte da lucratividade do aeroporto se deve às altas tarifas cobradas pelo transporte de cargas. O receio é de que esses valores caiam com a competição que as privatizações devem gerar. A situação de Viracopos pode se complicar ainda mais caso vingue o projeto do Novo Aeroporto de São Paulo (Nasp), que a Andrade Gutierrez e a Camargo Corrêa querem construir em regime privado em Caieiras, na Grande São Paulo. "Sabemos da ideia do Nasp e é claro que você vai colocar um prêmio de risco para isso. Nesse caso não seria o fim do mundo para Guarulhos, pois é um aeroporto já estabelecido. No caso de Viracopos, isso é bem preocupante", diz.

Para maximizar o valor de outorga dos aeroportos de São Paulo, avalia Von Berg, o governo deveria dar aos investidores a garantia de que nos primeiros dez anos de concessão não autorizaria outro aeroporto num raio de 100 quilômetros. No caso de Natal, a Anac estima que o vencedor do leilão teria de investir R$ 426 milhões na primeira etapa.

Posicionamento da Fraport surpreende presidente da Fiern

As declarações do diretor de projetos da Fraport ao Grupo Estado podem provocar um efeito dominó e influenciar empresas interessadas na concessão do aeroporto de São Gonçalo do Amarante, na ótica de Flávio Azevedo, presidente da Federação das Indústrias do RN (Fiern). "Essa é uma notícia muito preocupante. Desde que saiu o edital, várias empresas visitaram as obras do aeroporto. Nenhuma delas, porém, colocou de forma tão contundente o desinteresse pela concessão nem apontou as causas para seu desinteresse uma a uma. O que as empresas reclamavam eram de regras pouco claras, um dos motivos que levaram ao adiamento do edital", afirmou logo após saber do anúncio.

 O presidente da Fiern diz não ter ouvido de nenhuma das empresas que visitaram as obras ou procuraram a Federação que o aeroporto de São Gonçalo não era viável do ponto de vista econômico. Todas, segundo ele, entenderam que São Gonçalo do Amarante será a porta de entrada da América Latina. "Pode até ser inviável para grandes empresas como a Fraport, que administra o aeroporto de Frankfurt e é uma das maiores empresas de administração de aeroportos do mundo, mas não para empresas menores, que não tem a mesma capacidade de investimento".

Flávio relembra que representantes da Fraport e da Andrade Gutierrez estiveram na Fiern e demonstraram interesse em participar do leilão. "Eles  disseram que estavam entrando com uma parceria. Inclusive no aeroporto de Lima, no Peru, a Fraport atua em parceria com a Andrade Gutierrez. Me estranha a empresa está dando uma notícia dessa. Ela poderia apenas não participar desta licitação, como qualquer empresa privada. Fico matutando, qual o interesse dessa empresa ao divulgar isso? Será que não faz parte de um processo de torpedeamento do processo aeroporto de São Gonçalo para priorizar os do Sul?", questiona Azevedo.

Fazendo referência ao termo usado pelo Grupo Estado, segundo o qual, o desinteresse da Fraport na concessão acende a luz amarela, Flávio completa que o comunicado da Fraport, às vésperas do leilão, agendado para 22 de agosto, "acende a luz amarela bem próxima da vermelha".  Flávio Azevedo, que acompanha a construção do aeroporto desde o início, diz não saber se a operadora alemã apenas externou sua opinião ao ser perguntada sobre a concessão pelo Grupo Estado ou se participa de uma grande sabotagem. "Isso me cheira a sabotagem das empresas nacionais e estrangeiras ao aeroporto de Natal. Afinal, qual o interesse da empresa em dar um detalhamento desse? Tem alguma coisa por trás disso".

Para ele, o anúncio da privatização dos aeroportos do Galeão, Cumbica, Cofins, Vira-copos, Juscelino Kubitschek pode ter feito a Fraport desistir do negócio no Rio Grande do Norte. "A essa altura, me preocupa que o mesmo ocorra com outras empresas.  A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) ao divulgar a notícia da privatização pode ter nos criado um grande problema. Eles sequer pensaram que este anúncio, que poderia ter sido adiado por mais 60 dias, podia gerar este prejuízo para Natal. Desde da primeira hora alertei para isso". A Anac só se pronunciará amanhã.

Fonte: Tribuna do Norte Online

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