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Tribuna do Norte

Retração de investimentos da Petrobrás afeta economia potiguar

Além do setor petróleo, crise já é sentida na construção civil, transporte rodoviário e hotelaria

26 de março de 2013 às 10:57

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Foto: Christian Vasconcelos

A desaceleração da atividade petrolífera no Rio Grande do Norte tem provocado a demissão de centenas de trabalhadores e afetado a economia do estado. Só o Sindicato dos Petroleiros homologou 1.130 demissões de terceirizados da Petrobras entre janeiro de 2012 e fevereiro de 2013. O Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil homologou 1,5 mil demissões de pedreiros, carpinteiros, serventes, soldadores que prestavam serviço para a estatal, entre outubro de 2012 e fevereiro deste ano. 

O setor de Transportes Rodoviários também sofreu baixas. O Sindicato que representa a categoria homologou 258 demissões de terceirizados da Petrobras nos últimos 13 meses e espera novas homologações para os próximos dias. “Todas as 12 empresas associadas ao nosso Sindicato estão com funcionários de aviso prévio”, informou Francisco de Assis de Medeiros, presidente do Sintrom. Todas as demissões foram registradas em Mossoró, principal polo produtor de petróleo. A demissão dos terceirizados já repercute no mercado. 



A taxa de ocupação dos hotéis caiu até 55% nos últimos dois anos, afirma João Sabino, hoteleiro e diretor do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes de Mossoró. “Em janeiro não havia petroleiro - pessoa que trabalha na indústria de petróleo - hospedado em nenhum dos 11 hotéis de Mossoró. Antes só o meu hotel hospedava entre 30 e 40 terceirizados”, compara Sabino. 

Com a desaceleração da atividade, a clientela de Sabino, formada sobretudo por terceirizados da Petrobras, sumiu. “O meu hotel já teve a melhor taxa de ocupação do estado. Hoje deve ter a pior. Todo mês cai a nossa ocupação. O que nos mantém é o faturamento dos outros hotéis da rede, que estão fora de Mossoró”, diz o hoteleiro. 

A tendência, segundo o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Mossoró, Alexandrino Lima, é que a situação piore. “Restaurantes, supermercados e farmácias devem ser os próximos a sentir os efeitos”, prevê.  

Segundo o diretor da Câmara de Dirigentes Lojistas de Mossoró, Elviro Rebouças, o número de empresas que prestavam serviços para a estatal em Mossoró caiu pela metade nos últimos anos. “Antes, existiam 80 empresas. Hoje o número não deve ultrapassar 40”. 

Depois de uma série de reuniões com os setores afetados, a Prefeitura de Mossoró começou a elaborar um projeto que apontará novos rumos para as empresas terceirizadas. A ideia é evitar novas demissões e amenizar o impacto na economia. A prefeitura vai sugerir que as empresas que antes prestavam serviço para a Petrobras migrem para a cadeia de energia eólica e auxiliar no redirecionamento das atividades. “O problema é real”, afirma o subsecretário de Trabalho, Turismo, Indústria e Comércio, Segundo de Paula.


Baque no setor de petróleo repercute

A desaceleração da atividade petrolífera no estado foi tema de pronunciamento este mês na Câmara de Deputados. O assunto foi levado até Brasília pela deputada federal Sandra Rosado, de Mossoró. “O meu Estado, Rio Grande do Norte, que tem como base econômica a extração do petróleo, hoje sofre com as consequências da diminuição de investimentos por parte da Petrobras, que investe maciçamente na camada pré-sal no litoral do Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo. Esquecem-se de que o nosso Estado ainda tem petróleo. O resultado dessa retração é o fechamento de empresas que terceirizam seus serviços para a Petrobras e, com isso, dispensam o serviço de milhares de trabalhadores. Hoje o que vemos, principalmente na cidade de Mossoró, é uma onda de demissões em massa, que, no último ano, já alcançou quase 3 mil desempregados”, discursou.

Sandra pediu uma audiência com a presidente da Petrobras, Graça Foster, para tentar reverter o quadro. Ainda não há uma data fechada para a reunião. Segundo a deputada, a Petrobras não pode esquecer que o Rio Grande do Norte ainda tem petróleo. “Também não pode esquecer do impacto econômico que causa tal retração e que se investir em tecnologia para pesquisas de exploração também encontrará petróleo de qualidade”.  

O cenário atual, segundo ela, já foi alertado há dois anos, por parte do Sindicato dos Petroleiros, em audiência pública, com diretores da Petrobras, na Câmara Municipal de Mossoró, onde discutiu-se a possibilidade de desinvestimento por parte da empresa na região, considerando a recente descoberta do pré-sal. “A situação é tão grave que se não tomarmos uma atitude muito em breve a Petrobras pode deixar de existir não só no Rio Grande do Norte, como também no Ceará e em Aracaju”, afirmou, durante o discurso. 

Segundo Pedro Idalino, presidente do Sindipetro, no último mês a Unidade da Petrobras do Rio Grande do Norte-Ceará recebeu um documento da superintendência da Bacia de Campos, no Rio de Janeiro, solicitando a transferência de 379 funcionários para trabalhar na unidade do Rio de Janeiro. Embora sindicatos enxerguem nesta solicitação indícios de esvaziamento da estatal no estado, o subsecretário de Trabalho, Turismo, Indústria e Comércio de Mossoró, Segundo de Paula, afirma que esse risco não existe.

“A Petrobras não deixará de investir no estado. Nós tivemos uma reunião, há um mês, com a Petrobras. Demonstramos nossa preocupação. Eles disseram que não sairão de Mossoró e que estão passando por uma fase de ajustes. Explicaram também que estão licitando novas áreas de exploração”, tranquilizou. 

Para Francisco Wendell, coordenador do curso de Engenharia de Petróleo e Gás da Universidade Potiguar,  a redução da operação no RN já era esperada. “É claro que a Petrobras vai investir no pré-sal. Com essa bacia enorme, é natural que boa parte dos investimentos migre para lá”. Doryan Filgueira, presidente da Redepetro, que reúne empresas que atuam na cadeia do petróleo no estado, também acredita que não há riscos da companhia deixar de investir no estado. 

“É algo temporário. A Petrobras está ‘arrumando a casa’. Claro que poderia ser melhor. Se tivesse mais sondas, o quadro seria diferente. Mas essa é uma questão de estratégia da empresa. Agora que eles vão parar com a atividade no estado, não vão”.

Exploração no mar é alternativa

O quadro de demissões dos petroleiros terceirizados pode ser revertido, na opinião de Doryan Filgueira, presidente da Redepetro, com a descoberta de novas jazidas no estado. Francisco Wendell, coordenador do curso de engenharia de Petróleo e Gás na Universidade Potiguar, concorda, e acredita que a exploração de petróleo em águas profundas - um plano já anunciado pela Petrobras, mas constantemente adiado - pode ajudar a aumentar a produção de petróleo e gás no RN e reabrir os postos de trabalho fechados. 

A companhia previa começar a explorar petróleo em águas profundas no estado em 2012, mas preferiu iniciar a exploração pelo estado do Ceará, que também faz parte da Bacia Potiguar. A Agência Nacional de Petróleo (ANP) realizará um novo leilão de blocos para exploração de petróleo e gás em maio.

 Ao todo serão ofertados 289 blocos, em 11 bacias de petróleo. O RN, que se revezava com o Amazonas na posição de maior produtor em terra e faz parte da bacia Potiguar, é o estado com a quarta maior oferta no leilão, em quilômetros quadrados. 

Ao todo, a Bacia Potiguar dispõe de 30 blocos e de uma área de quase oito mil quilômetros quadrados, distribuídos em campos em terra, águas rasas e águas profundas. A bacia Foz do Amazonas e a Barreirinhas são as que possuem a maior oferta entre as 11 bacias que participarão do leilão. 

Em fevereiro de 2012, a Petrobras afirmou que apostava na aquisição de novas áreas para alavancar a produção petrolífera do estado. A companhia foi procurada esta semana para comentar o assunto, mas até a noite de ontem não havia respondido aos questionamentos enviados pela reportagem, por e-mail, na última terça-feira (19).

Dados do petróleo e gás no RN, clique na imagem para ampliar:

Fonte: Tribuna do Norte, com títulos da Redação

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