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“Procuramos fazer a nossa parte”

Autor: 
José Araújo

Entrevista para o Na Luta 49:

NA LUTA: Com a aprovação de mais de 70% dos trabalhadores presentes às assembleias realizadas pelo Sindicato, a proposta da Petrobrás para a renovação das cláusulas econômicas do Acordo Coletivo de Trabalho foi aceita. Em sua opinião, quais foram os principais ganhos econômicos obtidos pela categoria?

Apesar dos resultados ruins obtidos no primeiro semestre pela Companhia, foi um bom acordo. A RMNR, o Auxílio-Almoço, a Gratificação de Campo Terrestre de Produção, o Adicional do Estado do Amazonas, as tabelas de Benefícios Educacionais e o programa Jovem Universitário, foram reajustados em 8,16%, contra 5,24% do IPCA, 5,39% do INPC e 6,18% do ICV-DIEESE, trazendo, efetivamente, ganhos reais nesses quesitos. Além disso, a categoria reconquistou mais uma dobradinha (15/11) e garantiu a equiparação do pagamento das horas-extras dos trabalhadores da manutenção com as do pessoal do turno. Já, do ponto de vista das carreiras e da vida funcional na Empresa, penso que faltaram vontade política e determinação por parte das duas federações, que se omitiram destas discussões. Compreendemos e queremos discutir um Novo Plano de Cargos e Salários e uma nova Política Remuneratória, com a incorporação da RMNR e uma AMS de qualidade.

NA LUTA: No decorrer da campanha, os petroleiros norte-rio-grandenses mostraram-se mobilizados, realizando assembleias, concentrações e paralisações massivas, especialmente no dia 26/09. Em alguns outros estados, também foram promovidas manifestações com grande adesão. Por que o movimento não foi adiante, empregando formas mais avançadas de luta?

Há um conjunto de fatores que precisamos analisar, a começar pela conjuntura, pelo contexto no qual a luta se desenvolveu. O primeiro deles, diz respeito aos reflexos da crise econômica internacional em nosso País. Neste ano, eles já estão mais evidentes e o governo tem se mostrado preocupado, endurecendo negociações, assim como fez com os servidores públicos federais e outras categorias. Outro aspecto negativo diz respeito ao desempenho da Petrobrás. No primeiro semestre, a Companhia registrou um lucro 64% inferior ao que fora apurado no mesmo período do ano passado. Por outro lado, além desses fatores, temos a divisão do movimento sindical petroleiro, que sempre dificulta a unidade de ação, impedindo a categoria de mostrar todo o seu potencial de luta.

NA LUTA: Nesse ambiente econômico desfavorável, como o senhor avalia a evolução do processo negocial com a Petrobrás? Houve algum avanço político na postura da Companhia?

Do ponto de vista político, o processo deixou muito a desejar. A categoria precisa discutir a guinada que a Petrobrás vem dando à direita para atender aos anseios do mercado de capitais em detrimento dos interesses do povo brasileiro. Precisamos discutir e exigir novos investimentos para revigorar a atividade do setor no Rio Grande do Norte. Para que se tenha uma ideia, saímos de uma produção de mais de 100 mil barris/dia de petróleo, para algo em torno de 70 mil. Precisamos discutir o programa de redução de custos que a Petrobras vem implantando na UO-RNCE, inclusive, com a ajuda de pessoas que se dizem de oposição à direção do Sindicato, trazendo enormes prejuízos para os trabalhadores próprios e do setor privado. Precisamos exigir mais celeridade no processo de perfuração no pós-sal na costa do Rio Grande do Norte. São temas que a categoria precisa discutir e se envolver.

NA LUTA: No movimento sindical petroleiro existem duas organizações de caráter nacional que se propõem a aglutinar os sindicatos e liderar as lutas da categoria: FUP e FNP. Em cada uma delas, por sua vez, atuam diversas correntes, com concepções e práticas políticas diferenciadas. Como esta divisão influiu no resultado da campanha e como o senhor avalia que se desenvolverá a luta pela unidade de ação da categoria petroleira no período vindouro?

Na recente campanha reivindicatória, não obtivemos grandes avanços muito por culpa da vontade política da FUP e da FNP. Por outro lado, nós, do SINDIPETRO-RN, dentro de nossas limitações, procuramos fazer a nossa parte. Desde 2010, desenvolvemos esforços, em todas as instâncias do movimento sindical petroleiro, em busca da unidade de ação da categoria. Nesta campanha e na da PLR, no entanto, minha maior decepção foi com a postura da FNP. Fica difícil construir a unidade, enquanto o discurso dessa entidade for o dos ataques e agressões que visam, tão somente, “destruir a FUP”. Eles perderam completamente o foco. Indicam a rejeição da proposta da Petrobrás, taxando a FUP de “governista”, mas não apresentam perspectiva de luta sem conseguir sensibilizar as próprias bases. Basta ver onde ocorreram as principais mobilizações durante a campanha reivindicatória e o quadro nacional com os resultados das assembleias de apreciação da proposta da Petrobrás. Nós, do SINDIPETRO-RN, não somos contra a existência da FNP. Queremos, apenas, que as duas entidades (FUP e FNP) se respeitem, se submetam aos interesses maiores da categoria petroleira. A luta deve se dar, sempre, no campo das ideias, das concepções. Nunca, como o que chegou a ocorrer aqui na sede Natal, quando trabalhadores que se dizem sindicalistas, protagonizaram atitudes lamentáveis, inviabilizando a discussão de encaminhamentos unitários em assembleias da categoria.